Livro: A sabedoria do deserto

Meu cunhado me deu esse livro no natal. Para mim foi muito interessante conhecer outro tipo de prática dentro do “guarda-chuva” católico, que agrega mais de 30 instituições diferentes daquela tradicional que estamos acostumados.

O livro “A Sabedoria do deserto” é uma introdução ao tema das práticas espirituais do deserto. Ele não vai a fundo no assunto.

A primeira parte do livro (26 páginas) nos conta um pouco da situação cultural da época. É bem superficial e você não vai encontrar detalhes do dia a dia, nem detalhes históricos. Novamente, é apenas uma introdução ao tema.

Na segunda parte (64 páginas) encontramos os “ensinamentos” propriamente ditos. São pequenas histórias de poucas linhas com ensinamentos desses monges. São 150 “historinhas”, das quais marquei 35 para reler futuramente. Sempre na forma de diálogos, ditos, parábolas. Nunca teóricos, abstratos ou pregações que mencionam as antigas escrituras, Jesus, Novo ou Velho Testamento. Nada disso. Simples e de fácil compreensão, permite qualquer leitor, de qualquer religião, a uma reflexão íntima.

Lembra muito o formato oriental clássico de ensinamento ao ponto que os leitores vindos das práticas orientais NÃO encontrão novidades nem na forma nem no conteúdo.

o leitor cristão, mesmo o não católico, vai sim encontrar novidades. Através desse livro chegará mais próximo de uma essência do ensinamento cristão.

O RESUMO DA MISSA
O resumo todo da história é que esses padres defendiam que pelo jejum, pela vida simples, o silêncio, o desapego e a oração podemos alcançar a iluminação.

Que o caminho espiritual é o autoconhecimento e começa no controle das paixões da alma. É para elas que devemos primeiramente observar e é contra elas que se deve lutar. E que a Verdade é impossível de ser alcançada unicamente pela razão.

E PORQUE OS PADRES IAM PARA O DESERTO?
Vou usar uma das histórias para responder essa pergunta.

Certa vez o abade Logino disse: “Um de meus projetos é afastar o meu olhar dos homens.”
O sábio Lúcio lhe disse: “Se não procurares em primeiro lugar corrigir-te no meio deles dos homens, não é vivendo sozinho que poderás corrigir-te.”

Ou seja, o ensinamento do diálogo acima é que não podemos nos afastar da sociedade para correr dos problemas. Parece contraditório. Se não podemos nos afastar da sociedade porque iam para o deserto?
A opção pelo deserto não era uma fuga da sociedade. Os monges do deserto se retiravam da sociedade com intuito de se aperfeiçoar, domar suas paixões, e atingido um certo grau, voltar à sociedade para ajudar os que precisam. Uma das regras nessas comunidades eram portas abertas. Isto é, mesmo que não tivessem atingido o ponto desejado, deveriam receber e ajudar todos aqueles que os procurassem. Assim, não estariam abandonando a sociedade.

QUEM É O AUTOR?
É comum a expressão “a obra foi maior que o autor”. Aqui é o contrário. Olhe atentamente para a capa do livro. O nome do autor tem mais destaque que o próprio título do livro. Thomas Merton vendeu MILHÕES de cópias. Isso mesmo, seus livros venderam MILHÕES de cópias. Seu nome é suficiente para emplacar um best-seller. Thomas Merton é um dos nomes mais conhecidos em religiões comparadas.

Como dito mais acima, o conteúdo e forma desse livro sobre os Padres do Deserto, nos remete aos orientais. Essa semelhança entre religiões ocidentais e orientais era a especialidade de Thomas Merton. Apesar de ser católico era um estudioso especialista em budismo e hinduísmo. Amigo pessoal do Da Lai Lama. Morreu em 1968 com 53 anos. Há suspeitas de o terem matado tamanho sua influência na sociedade e envolvimento com política.

Coloco no final desse post dois vídeos para que você possa conhecer um pouco mais sobre Thomas Merton.

O que eu, autor desse post, tirei de mais proveitoso foi perceber que esse tema da sabedoria do deserto é raiz para construção de um diálogo inter-religioso autêntico.

PONTOS NEGATIVOS DO LIVRO

Um ponto negativo é a apropriação pela igreja católica da sabedoria desses homens. O sub-título desse e de outros livro usam o termo “Padres do Deserto” dando a impressão que os sábios das tradições do passado eram todos padres.

Lembra da passagem de Jesus no deserto da Judéia? Era prática antiga ir ao deserto.

Antes de Jesus, antes mesmo de existir cristãos, já se ia ao deserto para buscar o desenvolvimento interior. Esses ensinamentos vem dos desertos da região do norte do Egito, Arábia, Palestina, Síria. Você deve saber que o Egito durante muito tempo foi a central do conhecimento parapsíquico, místico, esotérico, religioso e até mesmo científico. Os sábios estavam por ali. Inclusive Platão e outros gregos passaram por lá no Egito atrás desses sábios. Havia de tudo. Hindus, Budistas mas em sua grande maioria eram camponeses egípcios que não receberam formação formal nem sacerdotal. Eram cenobitas, eremitas, ascéticos os mais diversos. Os padres ali eram minoria.

Então, aparentemente, o justo mesmo seria usar um termo como “Monges do Deserto” ou “Sábios do deserto”. Mas em parte, o termo “padre” no sub-título está adequado pois é a versão distorcida da igreja.

Como assim “versão distorcida”?
Thomas Merton leu o que passou pelo filtro da igreja. Não partiu dos originais. Ele mesmo conta isso. Partiu do Verba Seniorum, tradução realizada por Heribert Rosweyde, jesuíta. Ele se baseou em fontes que passaram correções doutrinárias da igreja católica.

Uma das principais traduções do Verba Seniorum foram os romanos teólogos João e Pelagius. Pelagius defendia o livre arbítrio, defendia um estilo de vida asceta, de privações. Defendia que não precisamos de Deus para promover as boas ações. A evolução é um movimento íntimo. Não acreditava na sujeição a dogmas e valores da sociedade. Recusavam-se ser comandados. A única autoridade aceita era a sabedoria, a experiência e o amor.

Aí vem o concílio de Nicea, no séc IV, e o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano. Pronto, a situação estava montada. Esses sábios consideravam que sua prática religiosa cristã era incompatível com essa nova religião oficial do Estado. Eles precisavam de liberdade para viver e pensar. Foi quando se intensificou a migração de cristãos para o deserto.

Dada tamanhas discordâncias com a igreja podemos entender porque vários desses padres foram perseguidos e seus ensinamentos banidos e destruídos.

Isso não está no livro de Thomas Merton. Aos interessado num conteúdo mais próximo do original procure pelos ensinamentos de um outro padre do deserto. Seu nome é Evagrius Ponticus. Deixou muita coisa escrita. Suas obras ficaram mais imunes a essa “correção doutrinal”.

Outros pontos negativos menores são:

  • O livro em si não é original. São dezenas de livros sobre esse mesmo tema. Até mais completos que esse de Thomas Merton.
  • Os diálogos escolhidos são uma seleção dos favoritos de Thomas Merton. Muita coisa ficou de fora. E não há uma explicação ou os critérios do porque ele preferiu esse ou aquele.
  • Repetitivo. Algumas lições se repetem.
  • O livro só menciona os Abbas (abades) e deixa de fora as mulheres (Ammas).
  • As histórias poderiam ser organizadas por tema, facilitando consultas futuras.
  • O autor Thomas Merton poderia ter explicitado como esses padres influenciaram a igreja de hoje. Como por exemplo as regras, ordem dos Mosteiros de São Bento vem deles, a confissão, a noção de pecado foi influenciada, a regra de receber a todos, a meditação silenciosa etc.
  • Várias histórias/ensinamentos são ingênuas e por isso acredito que o livro seria bem adequado para um adolescente.
  • O livro retrata uma situação bem distante da nossa realidade. Ele reforça a idéia distorcida que a evolução só é possível nessas situações máximas de reclusão no deserto ou nas montanhas. O livro “Céu começa em você: A sabedoria dos Padres do Deserto para hoje” de Anselm Grün vai fazer melhor essa ponte com a nossa época.

COMO ERAM ESSAS ORAÇÕES DOS PADRES DO DESERTO?

O livro “Sabedoria do Deserto” fala muito de oração. Oração era sempre uma recomendação dos monges cristãos (padres). Fazia parte do estilo de vida deles. Mas não era um pai-nosso, ou ave-maria. O livro de Thomas Merton não vai entrar em detalhes.
Esse post já ficou muito grande, já estou saindo desse livro em específico mas o tema é interessante. Me permita mais algumas palavras. O trecho que segue teve como base o site www.wccm.com.br.

Era uma oração simples chamada Quies (do latim quieto, calmo, paz, repouso). Esse foi o tema central na vida de John Main (1926-1982). Antes de ser monge Beneditino, John Main conheceu a meditação por um mestre hindu. Posteriormente pesquisou as meditações do deserto, em especial as Conferências de João Cassiano (século IV) que vão falar sobre a orientação de São Paulo para “orar sem cessar” Salmo 70.

Segundo ele, “a contemplação é uma dimensão da vida Cristã que deve ser recuperada, pois assim a igreja e sua vida sacramental serão renovadas.”

John Main percebeu que a busca moderna por uma interioridade mais profunda requer uma simples disciplina contemplativa que possa ser praticada diariamente. Disto se desenvolveu uma comunidade mundial de meditantes, formada por Centros de Meditação Cristã e grupos de meditação semanal, que familiarizam as pessoas com esta tradição e dão o suporte necessário a cada um de seus membros para que cumpram a disciplina recomendada de dois períodos diários de meia hora de meditação.”

A TÉCNICA:

  • Sentado. Olhos fechados.
  • Repita o mantra “Maranatha”. Palavra do aramaico, língua que Jesus devia falar no dia a dia pois era Judeu. Maranatha tem múltiplos significados: “uma invocação ao Senhor” ou uma “mudança de opinião onde o velho é substituído pelo novo“. O significado varia se pronunciado de forma errada. É o mantra cristão. Cada sílaba deve ser pronunciada separadamente.
  • Pratique por cerca de vinte a trinta minutos.

Para saber mais sobre essa prática meditativa visite o site e encontre um grupo mais próximo em sua cidade: http://www.wccm.com.br


Livro: A Sabedoria do deserto – Ditos dos Padres do Deserto do século IV
Autor: Thomas Merton
Editora: Martins Fontes
90 páginas – 1a edição de 2004


Vídeo em português. Introdução sobre quem é e alguns livros de Thomas Merton.

Vídeo curtinho em inglês com a biografia de Thomas Merton:

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