Livro: Meditação – Uma introdução à prática meditativa antroposófica

Vamos logo acalmar as expectativas 🙂 A meditação antroposófica é diferente daquela meditação sentada amplamente difundida. Também não é uma prática de movimentação energética, e não vai te levar a estados ampliados de consciência. A meditação antroposófica objetiva modificações no nível da cognição e se utiliza de um método próprio de ordem prática.

O livro “Meditação” é uma explicação de como se dá as diferentes variações de meditação espalhadas pelas obras de Rudolf Steiner. É mais que uma compilação pois mostra o pano de fundo delas, ou seja, como funcionam e as idéias que fazem a prática ter sentido. O livro é original nesse sentido e não há outro que cumpra esse objetivo.

É interessante que antes de ler esse livro, o leitor saiba o que é a Antroposofia e as contribuições de Rudolf Steiner nas mais diversas áreas: agricultura, pedagogia, medicina, economia. Você não conseguirá tirar todo o proveito sem entender os princípios básicos do guarda-chuva da Antroposofia. Esses princípios básicos não são explicados no livro mas existem inúmeros livros, vídeos e sites por aí.

Para os que não conhecem, a imensa obra de Steiner foi produzida em 3 principais períodos.

O processo meditativo proposto por Steiner tem raízes nessas duas primeiras etapas descritas acima.

Um tema central no livro é a vida meditativa. Quem já tem algum nível de prática meditativa, vai notar que os autores Zimmermann e Schmidt passaram por um processo de meditação profundo para conseguir descrever de forma ímpar a vida meditativa.

Ao falar da vida meditativa, o autor faz uma comparação muito boa do processo de criação artística e da prática meditativa. É bom para quebrar uma visão romântica e até mesmo fantasiosa de que qualquer forma de arte funciona como prática de elevação, ou que introduzir uma atividade artística em uma prática em grupo qualquer será valioso. Não é assim. Diz ele: “Uma desencarnação temporária – ou seja, uma espiritualização do corpo – é o alvo do caminho meditativo, ao passo que o alvo do artista é a manifestação sensível individual. (…) O conhecimento suprassensível tem origem numa elevação da consciência acima do pensar vígil. O processo artístico, por sua vez, passa-se principalmente no âmbito do sentir.” Este sentir artístico pode, eventualmente alcançar o âmbito espiritual.

Além das diferenças, o autor descreve as similaridades entre a arte e o caminho meditativo e da sua importância pois elas, as artes, podem fecundar o processo meditativo. O encontro com o eu-superior não precisa ser na base da força mental. Fecundar o processo meditativo significa que outros elementos além do mental inferior tais como o corpo, os sentimentos, os sentidos, os órgãos, tudo isso pode ser utilizado para facilitar o encontro com a mente superior. Essa preocupação de como unir arte e ciência foi uma preocupação de Steiner durante aquele segundo período que descrevi acima.

As meditações aqui propostas trabalham em um nível acima da consciência vígil. Foge do mental “inferior”, racional, lógico. No meu entendimento, as diversas modalidades de meditação antroposófica trabalham abrindo a mente inferior para os impulsos da mente superior. Não há nada aqui que funcione a curto prazo. Acontece como pano de fundo e aos poucos vamos percebendo a mudança “pra-melhor”. Dito de outra forma: todos conceitos que temos em nossa mente possuem uma relação com uma representação da realidade. O que Steiner quer é liberar esses conceitos dessas relações. Quer um processo de cognição mais fluido. Quer descongelar conceitos gerados no processo cognitivo comum.

As meditações descritas no livro tem cada uma diferentes formas e objetivos. Inicialmente, no primeiro período utilizam símbolos e imagens. Depois, no segundo período, Steiner passa a trabalhar os “níveis linguísticos” e características imagéticas. Cada sílaba tem seu ritmo. Os fonemas e imagens são trabalhados. Esses elementos são tão importantes que Steiner chega a afirmar que “não importa o sentido passível de ser captado, e nem a própria interpretação do leitor”. Ele quer nos fazer ter a experiência vivencial que é maior. Nasce então as formas meditativas em versos, poemas e prosa. E daí que vem o hábito dos profissionais da Antroposofia lerem um verso no início e final de qualquer prática. Além dessas formas me chamou atenção um formato de “frases meditativas”.

Esse trabalho de Steiner de símbolos, imagens, ritmo, fonemas é complexo e chega no nível da escolha de cada sílaba de seus versos. Opinião minha é que isso representa um grande desafio para os tradutores. Desafio até para uma simples escolha de um verso que será lido. É preciso muita sensibilidade para isso e poucas pessoas a tem, principalmente os iniciantes.

Voltando ao livro…

Os capítulos da formação de um “espaço interior” e o que eles chamam de “exercícios preparatórios” é muito bom.

Nem tudo aqui é original, ou só se encontra aqui. A “meditação da noz” é bem semelhante a algumas práticas do Método Silva. Alguns dos “exercícios preparatórios” são desnecessários para quem passou por um curso de ciências exatas pois são atividades mentais do cotidiano dos profissionais dessa área do conhecimento. A “meditação da semente” é uma re-educação para criarmos uma forma pensênica relacionada com um ciclo natural de criação e evolução. Imagino que quem viva na área rural ou em contato mais próximo com a natureza também já tenha desenvolvido essa forma de ver e entender o mundo.

Apesar de vários desses exercícios meditativos se aplicarem e poderem ser praticados por qualquer pessoa, o autor apresenta sete condições para a uma vida meditativa:

  • O ser humano deve almejar a saúde corpórea e espiritual;
  • A relação do ser humano com seu ambiente: sentir-se como um membro de toda vida existente, assim se sentirá corresponsável com tudo que acontece;
  • Assumir que pensamentos e sentimentos tem tanto significado quanto as ações;
  • Balança espiritual: equilíbrio saudável entre o que vem de fora e o que queremos espiritualmente;
  • Constância no cumprimento de decisões tomadas;
  • Desenvolver a gratidão;
  • Harmonia de todas as condições anteriores.

O autor nos apresenta comentários para o trabalho meditativo em grupo. Algo bem importante para os que querem ampliar o caminho para além do individual e está envolvido com comunidades ou atividades em grupo.

Para quem não tem os principais livros de Steiner, encontram-se no apêndice final 30 páginas com cópia das instruções meditativas de Steiner.

O livro reforça que o contínuo estudo da Antroposofia é uma condição para a vida meditativa. Que a Antroposofia deve ser um compromisso pessoal. Mas tem um limite e chama atenção para que ela não tenha o efeito contrário e o praticante se torne um escravo da Antroposofia. Opinião pessoal do autor desse blog é que existem muitos escravos da Antroposofia.

BOLA FORA

Antes de mais nada, reconheço que Steiner foi um gênio. Um cara com experiência parapsíquica (suprassensível) inquestionável. Steiner foi um dos poucos homens que conseguiu trazer os ensinamentos superiores para ordem prática do dia a dia. Fez isso como nenhum outro.

Bem, o autor do livro é fã de Steiner. Mas sua adimiração chega ameaçar a imparcialidade que esperávamos de uma prática que se auto-entitula “ciência”.

O livro vai incrivelmente bem do início até o último parágrafo onde revela toda a gurulatria, relação religiosa, admiração cega que infelizmente existe com muita gente da Antroposofia. Escrevo aqui como está lá na página 166, último parágrafo do livro:
“Assim sendo, podemos designar Cristo como o verdadeiro mestre desse caminho, e Rudolf Steiner como seu mediador para os contemporâneos,…”

Damos um desconto. Ninguém é perfeito. O livro é muito bom para quem estuda e quer entender os mecanismos sutis da Antroposofia. Recomendo.

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