O FUTURO DA RELIGIÃO na sociedade global – Uma perspectiva multicultural

UM TEMA MUITO PRESENTE HOJE EM DIA

60 anos atrás, na França, para a surpresa de muitos, uma missa foi transmitida pela primeira vez na TV. Mais recentemente o Dalai Lama passou a fazer lives. O papa fez uma missa sozinho na praça de São Pedro no Vaticano. Todos são desafiados pelas novas tecnologias e pelas mudanças das regras sociais.

Fonte: UOL
Fonte: Pedro Nunes Neto (Youtube)

São essas mudanças apenas superficiais nos rituais? As religiões de fato se modificam à medida que a sociedade muda? Por exemplo, o crescimento dos evangélicos mostra que eles souberam melhor se adaptar aos novos tempos? Quem não conhece alguém que começou a fazer Yoga, meditação ou prática energética pela internet, zoom ou por aplicativos? Será que essas práticas souberam melhor se adaptar aos novos tempos?

Quando refletimos sobre o assunto a primeira idéia que nos vem à mente é a visão darwinista, uma espécie de “evolução das espécies” para as religiões: os mais adaptados sobrevivem.

O LIVRO “O FUTURO DA RELIGIÃO”

O livro “O futuro da religião na sociedade global” veio mostrar ao autor desse post que existe um outro futuro para as religiões além dessa visão darwinista simplista.

Esse livro é uma iniciativa da Universidade Católica de Goiás em seu programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Apesar de ser de 2007, ainda está atualíssimo. Ele apresenta diferentes perspectivas do que podemos imaginar para um futuro das religiões. O livro é uma compilação de artigos. Alguns em espanhol. Não é uma tradução de pensadores de outros continentes de outros tempos ou culturas distantes. É um pensar de personalidade latino-americana e isso é muito bom !

O PROBLEMA E A RESPOSTA

Copio do livro uma frase de Marià Corbí que nos dá muito bem uma idéia do tamanho do desafio que é entender o futuro das religiões:

“As religiões não pretendem descrever como é o “absoluto”. Elas querem modelar uma forma de se viver com êxito. Mas o viver com êxito hoje em dia passa pelo consumo, passa por consciência planetária, passa pela interconexão global. E os mitos, os símbolos e os rituais das religiões já não nos ensinam como se viver com êxito. O cidadão contemporâneo, que por sinal, pouco lê não se programa mais com os mitos, com histórias antigas.”

As religiões tem então nada mais que entender a humanidade e propor uma forma de se viver com êxito. O livro não assume essa responsabilidade e não vai nos apresentar uma resposta pronta. Pelo contrário, apresenta diferentes pontos de vista. De forma sintética, há quatro possibilidades para o futuro da religião:

  • 1 – A religião continua como é. Há os que defendem que elas não se modificam aos novos tempos.
  • 2 – Outros dirão que as religiões se adaptam aos novos tempos.
  • 3 – Não há dúvidas que o sagrado passou a ser desvalorizado pela sociedade de consumo. O espaço que antes era território exclusivo das religiões agora é preenchido pelas inúmeras práticas que nos colocam em contato direto com o numinoso, com o extra-físico. A experiência direta sem necessidade de padres e mestres significa a perda de autoridade desses líderes e suas instituições religiosas. O tiro de misericórdia vem com a disseminação das práticas terapêuticas energéticas que entram em territórios que a religião não se apropriou como a “auto-cura”. Tudo isso faz crer em uma visão em que as religiões perdem adeptos até o ponto de perder sua representatividade e influência na sociedade. As religiões viram quase que guetos e em alguns casos se extinguem por completo.
  • 4 – As religiões serão fortalecidas. Um dos temas abordados no livro são as religiões que ao contrário de se flexibilizarem para mudanças no mundo, tem uma reação contrária fortalecendo suas linhas mais rígidas (ortodoxas). Segundo os autores, esse comportamento acontece com TODAS as religiões sem excessão.

ORIGINALIDADE:

Para os “filósofos”, o assunto do futuro da religião não é novidade. Já é estudado há centenas de anos. Infelizmente, a academia perdeu tempo e ficou presa na teologia tradicional e não conseguiu formar uma teoria da religião em si. No caso do Brasil, ainda nem se conseguiu mapear o que existe por aí de variantes de práticas religiosas, suas misturas, suas histórias.

O livro “O futuro da religião” talvez seja um passo para fora da visão teológica tradicional da academia. A originalidade do livro está em tentar ajudar a construir um pensar mais amplo e imparcial sobre o tema. Tenta construir uma relação política histórica, as religiões e o processo de formação das identidades, a relação religião, etnia e cultura.

Portanto, é um ponto forte do livro não defender uma resposta direta para a pergunta “qual o futuro da religião?”. Ele nos dá embasamento para pensar e observar o que acontece à nossa volta. O livro não vai te trazer respostas óbvias ou superficiais.

PONTOS FRACOS:

  • O livro não dá um panorama sobre o crescimento das religiões. Alguns dados de censo, IBGE, ajudariam o leitor que não é especialista.
  • O livro oferece uma interessante história do catolicismo no Brasil e como vem mudando nos últimos 50 anos. Isso é muito bom, mas gostaríamos de ver incluído aí as outras principais religiões do Brasil.
  • O livro nos apresenta uma visão externa, a visão da academia. Seria interessante ter um capítulo com a visão do futuro da religião escrito por sacerdotes que vivem dentro de um sistema religioso e como eles têm visto as novas regras do tempo impactarem dentro de suas instituições.
  • O livro comete o mesmo erro acadêmico de sempre: considerar que a experiência do sagrado é uma só. Cada prática nos leva a um holopensene único e portanto as experiências são diferentes. É mais um livro de gente que pensa muito e pratica pouco.
  • Apesar do subtítulo trazer a palavra “multicultural”, não é tão “multi” assim. Infelizmente é um livro de “cultura de brancos” centrado no velho paradigma judaico-cristão.

QUESTÕES PESSOAIS do autor desse post:

  • O livro vai trazer idéias da “Teologia da Liberdade”, movimento da igreja católica. Eu não consigo me convencer que a igreja que participou de forma ativa no avanço inter-continental da forma como foi feito esmagando os povos originários de nossa terra, vai agora levantar a bandeira da anti-globalização e defesa dos povos locais. É incompatível. Me desculpem, mas as instituições religiosas muitas vezes se contradizem e mudam seus discursos para não sumirem do mapa pensando exclusivamente em seus próprios interesses. O futuro de algumas religiões só se sustenta na cegueira de seus seguidores.
  • Alguns artigos são muito infelizes e até bizarros. Tratam de biogenética, artes plásticas. Chegam a ficar fora de lugar e poderiam ser removidos sem qualquer prejuízo. Os organizadores acreditaram que isso daria um ar de modernidade ao livro. Foi um erro.

PARA QUEM INDICO:
Não indico o livro para quem está interessado no desenvolvimento espiritual íntimo. O livro é indicado exclusivamente para aqueles que estão tentando criar uma visão sobre o cenário religioso do Brasil, seu passado e seu futuro. Não é um livro gostoso de ler, mas o livro cumpre muito bem o objetivo a que se propõe.


Livro: O futuro da religião na sociedade global
Sub-título: Uma perspectiva multicultural
Organizadores: Alberto da Silva Moreira e Irene Dias de Oliveira
Ano: 2007/2008
Editora: Paulinas ( https://www.paulinas.org.br/editora/ ) e Universidade Católica de Goiás


Referências externas:

  • O vídeo abaixo não fala do futuro da religião. Fala do HOJE.
    As pessoas mudam e as religiões e suas instituições também estão mudando. Karnal só viu as pessoas mudarem. Não viu as religiões mudarem. Ele está preso a uma visão judaico-cristã fixa. Uma visão de uma religiosidade que já não é mais assim. Para mim, o discurso saudosista de Karnal vai além do tema central que ele propõe, o vazio contemporâneo. É mais que isso. É um convite a pensar o futuro das religiões e como nos relacionamos com elas. Assista. A palestra é boa.
  • A outra referência é um post sobre o livro de Pondé. Ele também está preso numa visão de religiosidade antiga ao ponto de sugerir que o leitor escolha uma religião com mais de mil anos. Nesse quesito é melhor que Karnal pois apresenta seus contra-argumentos. Não concordo com o livro mas o indico para reflexão.

Espiritualidade para corajososA Busca de Sentido no Mundo de Hoje de Luiz Felipe Pondé
Clique aqui e leia nossos comentários.

  • Encerro o post adicionando uma pesquisa que mostra um crescimento vertiginoso de pessoas tendo experiências místicas. Isso é um dos desafios para as religiões uma vez que a experiência direta questiona a necessidade de intermediação de um líder religioso e as próprias interpretações que delas surgem. Em 1962, 22% das pessoas tiveram alguma experiência mística. Em 2019 esse número sobe para impressionantes 49% da população. Apesar de serem dados de Estados Unidos, não perde seu valor no contexto que estamos abordando.
    https://www.pewforum.org/2009/12/09/many-americans-mix-multiple-faiths/#6

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